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A sistematicidade da leitura na escola: o que influencia na compreensão?

27 de janeiro de 2026,
E-docente
Leitura na escola

A leitura na escola constitui elemento basilar para o desenvolvimento intelectual, social e cultural do sujeito. Confira, neste artigo, como a sistematicidade dessa prática no contexto escolar impacta a compreensão leitora e a formação de cidadãos críticos.

Analisamos fatores internos e externos ao sujeito, estratégias pedagógicas e desafios contemporâneos, à luz de autores clássicos e pesquisas recentes. Consideramos o papel do professor enquanto mediador crítico e agente de transformação, enfatizando práticas inovadoras e reflexivas que favorecem o protagonismo do estudante na construção do sentido do texto. O texto também traz situações práticas para aplicação em sala de aula, visando fortalecer o trabalho docente.

O fenômeno da leitura no cenário da educação básica atual

No cenário atual da Educação Básica, compreender o fenômeno da leitura ultrapassa a dimensão instrumental, revelando-se um processo complexo, multidimensional e fundamental para o exercício da cidadania (kleiman, 2021). A escola, como espaço de socialização do saber, é chamada a promover experiências sistemáticas e intencionais que garantam o desenvolvimento de competências leitoras críticas e autônomas (SOARES; BATISTA, 2023).

A sistematicidade da leitura refere-se à implementação de práticas contínuas, articuladas e planejadas, que não se limitam ao ato de decodificação, mas visam à construção ativa de sentidos, à interpretação e à reflexão crítica sobre os textos (Solé, 2022).

Investigar o que influencia a compreensão na leitura é tarefa central para educadores comprometidos com a formação de leitores aptos a interagir com a diversidade textual da sociedade contemporânea.

Fundamentos da sistematicidade da leitura: pressupostos e práticas

A sistematicidade da leitura implica planejar rotinas pedagógicas que promovam contato regular com textos diversos, em gêneros, suportes e níveis de complexidade, mobilizando estratégias cognitivas e metacognitivas (Solé, 2022; Kleiman, 2021). Tal abordagem reconhece a leitura como processo ativo de construção de significado, no qual o leitor interage com o texto a partir de seu repertório, experiências prévias e objetivos específicos (KINTSCH; RAWSON, 2020).

Leia mais: Do registro à leitura crítica dos dados: o acompanhamento das aprendizagens como prática de equidade

A prática sistemática, segundo Solé (2022), contempla a seleção criteriosa de textos, a definição clara dos propósitos de leitura, o ensino explícito de estratégias e a avaliação processual do desempenho do aluno. Não se trata apenas de “ler mais”, mas de “ler melhor”, de modo reflexivo e consciente.

A leitura em contextos multiculturais e diversidade

Em sociedades marcadas pela diversidade cultural, a sistematicidade da leitura deve contemplar o respeito às múltiplas identidades, valorizando textos que dialoguem com diferentes vivências e saberes (Street, 2014).

Ao trabalhar com obras de autores de diferentes origens, o professor amplia o repertório dos alunos e fomenta a empatia e a compreensão de realidades distintas (Unesco, 2024).

Contribuições da neurociência para a compreensão leitora

Estudos recentes da Neurociência indicam que a compreensão leitora é resultado da interação de múltiplos sistemas neurais, ativando áreas relacionadas à memória, à atenção, à linguagem e às emoções (Garcia et al., 2023).

Tais descobertas reforçam a importância de práticas pedagógicas que estimulem o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como o pensamento crítico, a autorregulação e a flexibilidade mental (Kintsch; Rawson, 2020).

Fatores que impactam a leitura na escola: variáveis internas e externas

A compreensão de textos é influenciada por variáveis intrínsecas e extrínsecas ao sujeito leitor, conforme destaca Kleiman (2021):

Fatores internos ao aluno

  • Conhecimento prévio: o leitor acessa o novo a partir do já conhecido; ativar esquemas mentais anteriores favorece a compreensão (Kintsch; Rawson, 2020).
  • Motivação e interesse: alunos motivados tendem a engajarem-se mais profundamente, o que favorece a retenção e a análise crítica das informações (Soares; Batista, 2023).
  • Domínio de estratégias cognitivas: antecipação, inferência, paráfrase e resumo são habilidades ensináveis, fundamentais para a compreensão ativa (Solé, 2022).

Fatores externos e o ambiente escolar

  • Qualidade e diversidade dos textos: trabalhar com diferentes gêneros e mídias, incluindo textos literários, informativos e multimodais, amplia o repertório e desafia o leitor a mobilizar distintas estratégias (Street, 2014).
  • Ambiente alfabetizador: salas de aula e bibliotecas acolhedoras, com acesso facilitado a livros e materiais variados, estimulam o hábito e o prazer pela leitura (Rosenblatt, 2013).
  • Tempo dedicado e acompanhamento: Rotinas diárias, clubes de leitura e projetos interdisciplinares são exemplos de práticas sistemáticas que favorecem o desenvolvimento leitor (Unesco, 2024).

Desafios contemporâneos: a leitura no universo digital

Com a crescente presença das tecnologias digitais, os modos de ler e compreender textos mudaram significativamente. O excesso de informações, a leitura fragmentada em telas e a necessidade de desenvolver a literacia digital são desafios que exigem novas práticas pedagógicas (Castro et al., 2023). Ensinar o aluno a lidar com hiperligações, checar a confiabilidade das fontes e navegar criticamente no universo digital é hoje tarefa indispensável do professor.

O papel estratégico do professor na mediação da leitura

O professor é agente central na promoção da sistematicidade da leitura. Cabe-lhe planejar, acompanhar e avaliar o processo de construção de sentidos, oferecendo suporte adequado às necessidades dos alunos (Kleiman, 2021). Práticas como a leitura em voz alta, o uso de “modelagem” do pensamento (“pensar alto”), rodas de discussão e produção de resenhas são exemplos de estratégias eficazes.

Situações didáticas inovadoras e colaborativas

  • Sequências didáticas integradas: propostas que unem leitura, escrita, oralidade e análise crítica, como projetos de produção de jornais, podcasts ou blogs escolares, potencializam a aprendizagem (Soares; Batista, 2023).
  • Leitura compartilhada e colaborativa: Atividades em grupo favorecem o diálogo, a negociação de sentidos e a aprendizagem entre pares (Rosenblatt, 2013).
  • Uso de tecnologia digital: Ferramentas como e-readers, aplicativos de anotação e plataformas de livros digitais possibilitam experiências de leitura mais interativas e personalizadas (Unesco, 2024).

Avaliação formativa e devolutiva qualificada

A avaliação não deve ser apenas somativa; é fundamental oferecer devolutivas qualificadas, indicando avanços, dificuldades e caminhos possíveis para o aprimoramento das competências leitoras (Luckesi, 2020). Os usos de portfólios, diários de leitura e autoavaliação são práticas que envolvem o estudante no acompanhamento do próprio processo.

Políticas públicas, família e comunidade

Para garantir a sistematicidade da leitura, é imprescindível que haja políticas públicas consistentes, como a distribuição regular de livros, a formação continuada de professores e a ampliação do acesso a bibliotecas escolares (Unesco, 2024). A parceria com a família e a comunidade também é estratégica, estimulando a leitura em casa e valorizando o leitor fora do espaço escolar.

Saberes e práticas de alfabetização: contribuição atual na área de estudo

A tese de doutorado intitulada Saberes e práticas pedagógicas dos professores alfabetizadores nos contextos escolares no Brasil e na França: gestão da avaliação através da intermediação-planejada no ciclo de alfabetização (2019), aprofunda a análise sobre a alfabetização sistemática e a sistematicidade do ensino da leitura e da escrita.

Principais contribuições:

  • Valorização da alfabetização sistemática: a autora evidencia que os professores formados pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC/Brasil) e pelo programa Éduscol/Ifé – PPC2 (França) adotam métodos estruturados, com rotinas bem definidas e sequências didáticas articuladas, que sustentam a progressão planejada da aprendizagem da leitura e escrita.
  • Gestão planejada da avaliação: a pesquisa destaca a intermediação-planejada como componente essencial para garantir avaliação formativa contínua, ajustando práticas pedagógicas às necessidades individuais dos alunos ao longo do ciclo de alfabetização.
  • Comparação Brasil–França: O estudo revela que, no Brasil, a orientação normativa do PNAIC guia a organização do ensino; na França, há uma gestão docente intencional com foco curricular bem definido, avaliações diárias e intervenções sistemáticas graduais.
  • Estilo profissional docente: A pesquisa identifica que, mesmo em contextos diversos, os professores desenvolvem estilos profissionais próprios, marcados por intencionalidade e constância em suas práticas de leitura e escrita.

Implicações para a compreensão leitora

O estudo reforça que a sistematicidade do ensino da leitura, sustentada por práticas de avaliação contínua e intermediação planejada, influencia diretamente a compreensão dos alunos. A estruturação intencional das atividades, baseada em avaliação ajustada, possibilita o planejamento para dificuldades e intervenções mais eficazes.

Leia mais: Leitura pelo professor e formação do leitor literário na escola

De acordo com Oliveira (2019), a alfabetização sistemática se apoia em uma gestão intencional do ensino e da avaliação, em que o professor atua como mediador estratégico, ajustando a intervenção pedagógica conforme as necessidades dos alunos, o que favorece significativamente a compreensão leitora.

Considerações finais

A sistematicidade da leitura na escola não pode ser vista como um conjunto de práticas isoladas, mas como um projeto coletivo que envolve planejamento, intencionalidade e compromisso de toda a comunidade escolar. Formar leitores autônomos e críticos, capazes de compreender, interpretar e transformar a realidade, é tarefa complexa, mas imprescindível para o pleno exercício da cidadania.

Leia mais: O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e a Importância da Leitura

Cabe ao professor assumir o papel de mediador do conhecimento, criando ambientes desafiadores, acolhedores e inovadores, nos quais o prazer e o sentido da leitura sejam experimentados cotidianamente. O enfrentamento dos desafios contemporâneos, aliados ao resgate das experiências culturais e à incorporação das novas tecnologias, constitui o caminho fundamental para fortalecer a leitura na escola de forma inclusiva e transformadora.

Minibio da autora

Renata Jatobá fez Pós-doutoramento em Bolonha pela Universidade de Lisboa-Portugal. É Doutora em Ciências da Educação pela Université Lumière Lyon 2 na França e Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco – Brasil. É Especialista em Éducation Pédagogique et Culture(s) de l`Altérité pela Université Claude Bernard Lyon 1 – França. É Coordenadora Científica da Especialização Avançada em Educação e Inovação Aplicadas à Educação Cooperativa, no Instituto CRIAP Psicologia e Formação Avançada Porto/Portugal. Realiza consultoria educacional, é autora de materiais didáticos e pedagógicos.

Referências

CASTRO, C. M.; CUNHA, E. C.; FRANÇA, V. M. Leitura digital e compreensão leitora: desafios da educação básica. Revista Brasileira de Educação, v. 28, n. 1, p. 55-71, 2023.

GARCIA, A. M. et al. Neurociências da leitura: contribuições para a educação. Educação & Sociedade, v. 44, e247922, 2023.

KLEIMAN, A. B. Leitura: ensino e pesquisa. 18. ed. Campinas: Mercado de Letras, 2021.

KINTSCH, W.; RAWSON, K. A. Comprehension. In: REYNOLDS, D. et al. (org.). Handbook of Reading Research. Vol. V. New York: Routledge, 2020. p. 135-152.

LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 25. ed. São Paulo: Cortez, 2020.

OLIVEIRA, Renata Araújo Jatobá de. Saberes e práticas pedagógicas dos professores alfabetizadores nos contextos escolares no Brasil e na França: gestão da avaliação através da intermediação-planejada no ciclo de alfabetização. 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019.

ROSENBLATT, L. M. A literatura como exploração. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2013.

SOARES, M.; BATISTA, A. A. Práticas de leitura na escola básica: desafios e perspectivas. Cadernos de Educação, v. 26, n. 54, p. 134-154, 2023.

SOLÉ, I. Estratégias de leitura. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

STREET, B. V. Literacy in Theory and Practice. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.

UNESCO. Relatório Global sobre Educação e Alfabetização. Paris: UNESCO, 2024. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/. Acesso em: 31 jul. 2025.

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