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Quando quase não há tecnologia: como usar a inteligência artificial de forma simples, ética e acessível na escola pública

Como usar a inteligência artificial na escola pública

Sem computadores, sem internet estável, com poucos recursos… o que fazer quando o futuro bate à nossa porta, mas a infraestrutura ainda está no passado? Como viabilizar saberes relacionados à inteligência artificial utilizando apenas o celular do professor? Embora seja contraditório, e uma situação nada ideal de trabalho, é justamente em contextos desafiadores que surgem as estratégias pedagógicas mais criativas, com grande possibilidade de sucesso.

Presente nos celulares, nas redes sociais, nos aplicativos de vídeos, nos mecanismos de busca e nas recomendações automáticas de conteúdo, a inteligência artificial (IA) faz parte do cotidiano dos estudantes brasileiros, mesmo quando a escola onde estudam quase não dispõe de infraestrutura tecnológica.

A BNCC Computação e os Desafios da Inteligência Artificial em 2026

Em 2026, a implementação da BNCC Computação (complementação da Base Nacional Comum Curricular – BNCC) torna-se obrigatória nos currículos das escolas brasileiras, públicas e privadas. Nesse contexto, a inteligência artificial consolida-se como um conjunto de tecnologias cada vez mais presente nos processos educacionais, seja no apoio à personalização da aprendizagem, seja na organização e gestão escolar, integrando-se de forma estruturada e transversal ao currículo em consonância com as competências previstas na BNCC.

Nesse cenário, surge um desafio significativo para escolas e educadores: como promover o letramento em inteligência artificial de forma crítica, ética e inclusiva, mesmo em contextos de escassez tecnológica?

Este artigo parte da premissa de que promover o letramento em inteligência artificial não depende exclusivamente de computadores, internet rápida ou laboratórios modernos, mas de intencionalidade pedagógica, mediação docente e compromisso ético. Se sua escola conta apenas com um celular, acesso limitado à internet, ou quase nada disso, esta conversa é especialmente para você.

O que é Inteligência Artificial? Desmistificando Conceitos

Para compreender os desafios do uso da inteligência artificial na escola pública, é necessário delimitar o que se entende por IA e desfazer concepções equivocadas do senso comum. De forma simplificada, a inteligência artificial pode ser compreendida como sistemas computacionais capazes de analisar grandes volumes de dados, identificar padrões e gerar respostas ou previsões, simulando aspectos da inteligência humana. O termo simular indica que a IA não reproduz processos cognitivos humanos, mas imita resultados associados a comportamentos considerados inteligentes.

Assim, a IA não pensa, não compreende nem faz juízos morais como os seres humanos. Ela reconhece padrões de linguagem, imagem e som e produz respostas com base em correlações estatísticas aprendidas a partir de dados previamente processados, e não em compreensão semântica ou raciocínio humano.

Leia mais em: Inteligência Artificial (IA): ficção, realidade e o uso na Educação https://www.edocente.com.br/blog/inteligencia-artificial-educacao/

Por que a distinção entre simular e pensar importa na educação?

Essa distinção é fundamental no contexto educacional, pois a confusão entre simulação e compreensão pode levar à aceitação acrítica de respostas fornecidas por sistemas de IA, enfraquecendo o pensamento crítico, a autonomia intelectual e os processos de criação e autoria dos estudantes.

Além disso, como aprendem a partir de dados históricos e sociais, os sistemas de IA tendem a reproduzir e, em alguns casos, intensificar vieses e desigualdades relacionadas a gênero, raça, classe social e território. Por isso, é essencial que educadores promovam uma leitura crítica das respostas e recomendações geradas por essas tecnologias.

Por fim, é importante reconhecer que a humanização da IA atende a interesses comerciais e corporativos, pois facilita sua aceitação, aumenta o tempo de uso e gera dados comportamentais valiosos. Diante disso, compreender como a IA funciona permite desmistificar sua aparente “inteligência”, identificar usos adequados e problemáticos e utilizá-la de forma consciente como ferramenta complementar, e não substitutiva, nos processos educativos.

Estratégias de IA Desplugada na Escola Pública

Quando se fala em escola pública com quase nenhuma tecnologia, é fundamental ampliar o entendimento sobre o que significa trabalhar com inteligência artificial. A ausência de laboratórios, equipamentos modernos ou acesso constante à internet não inviabiliza essa abordagem. Pelo contrário, abre espaço para estratégias pedagógicas desplugadas (sem uso de dispositivos digitais), centradas na reflexão e na análise crítica.

Atividades de IA desplugada permitem explorar conceitos como reconhecimento de padrões, tomada de decisão, classificação, previsões e vieses por meio de jogos, debates, análise de textos e simulações. Ao criar regras ou representar algoritmos, os estudantes compreendem que a IA não “pensa”, mas segue critérios definidos por humanos, e que esses critérios produzem impactos reais na sociedade.

Essas práticas dialogam diretamente com os pressupostos da BNCC Computação, que propõe o desenvolvimento do pensamento computacional de forma progressiva, integrada e ética. A BNCC não restringe o ensino da computação ao uso de tecnologias digitais avançadas, mas enfatiza habilidades como decomposição de problemas, reconhecimento de padrões, abstração e construção de algoritmos, análise crítica de artefatos computacionais, todas possíveis de serem trabalhadas de forma desplugada.

Ao abordar a inteligência artificial sob essa perspectiva, a escola cumpre as orientações curriculares sem subordinar o processo educativo às limitações de infraestrutura tecnológica.

O Papel do Professor e o Uso de IA com Baixa Conectividade

Mesmo em contexto de baixa conectividade, o professor pode utilizar a inteligência artificial de forma estratégica para otimizar seu trabalho e enriquecer as práticas pedagógicas.

Ferramentas de IA generativa (como o ChatGPT, Gemini ou DeepSeek) podem ser utilizadas em locais com acesso à internet para preparar materiais que serão levados impressos ou em arquivos digitais para a escola. A IA pode auxiliar na adaptação de textos para diferentes níveis de leitura, na elaboração de planos de aula, trilhas de aprendizagem, bancos de questões com gabaritos comentados e atividades contextualizadas, muitas vezes utilizando apenas o celular do professor.

É fundamental lembrar que as respostas geradas pela IA não são neutras nem infalíveis e devem sempre ser analisadas e revisadas. Dados sensíveis de estudantes não devem ser inseridos em plataformas automatizadas, e a tecnologia jamais deve substituir a autoria, o julgamento pedagógico e a responsabilidade ética do professor.

Tornar explícitos os limites da IA, inclusive para os estudantes, contribui para o letramento digital crítico e para uma relação mais consciente com a tecnologia.

Pilares do Letramento Digital

  • Instrumentalização: operar ferramentas, softwares de produtividade e navegar em plataformas digitais.
  • Pensamento crítico: distinguir fatos de desinformação e identificar vieses algorítmicos.
  • Criação e autoria: produzir conteúdos, resolver problemas e interagir de forma consciente com tecnologias digitais, inclusive IAs generativas.

O letramento digital transforma o estudante de um usuário passível de tecnologias em um cidadão digital pleno, capaz de utilizar recursos tecnológicos para compreender e intervir em problemas reais de sua comunidade.

Conclusão: Tecnologia, Ética e Justiça Social

Falar de inteligência artificial na escola pública, especialmente quando quase não há tecnologia disponível, não é falar de futurismo ou de inovação vazia. É falar de formação cidadã, de leitura crítica do mundo e de justiça social.

Ao desmistificar a inteligência artificial e trabalhar seus limites de forma simples, ética e acessível, a escola reafirma seu papel: formar sujeitos capazes de compreender, questionar e posicionar-se criticamente diante das tecnologias que moldam a sociedade contemporânea.

Acredite. A tecnologia mais poderosa da sala de aula sempre será o professor. A inteligência artificial utilizada de forma ética e crítica, jamais substituirá a mediação humana, a escuta sensível e o compromisso com a aprendizagem.

Para que a IA não amplie desigualdades, é fundamental que os governos federais, estaduais e municipais efetivem políticas públicas como a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e façam valer o Marco Legal da Inteligência Artificial, para proteger os dados de estudantes e professores.

Apesar da realidade desafiadora, é possível construir coletivamente uma educação que prepara para o futuro, sem deixar ninguém para trás no presente.

Guia Prático: Orientações Pedagógicas para Pouca Tecnologia

1. Princípio pedagógico

A tecnologia não substitiva a intencionalidade pedagógica. Antes de pensar em ferramentas, pergunte-se:

  • O que quero que meus alunos compreendam?
  • Que tipo de pensamento desejo desenvolver?
  • Que reflexão ética quero provocar? Mesmo sem computadores, a aprendizagem acontece quando há mediação consciente, problematização e contextualização.

2. A realidade da escola e dos estudantes

Parta sempre da realidade concreta da turma:

  • Nem todos têm celular.
  • Nem todos têm internet.
  • Nem todos usam tecnologia da mesma forma. Evite atividades que exponham desigualdades ou constranjam estudantes. Utilize exemplos cotidianos comuns (TV, rádio, anúncios, regras da escola) e privilegie atividades coletivas.

3. A inteligência artificial como conteúdo, não como ferramenta

Ensinar sobre inteligência artificial é diferente de ensinar com inteligência artificial. Práticas possíveis sem tecnologia digital:

  • Debates sobre decisões automatizadas.
  • Análise de regras e critérios.
  • Simulações de algoritmos.
  • Discussões sobre justiça, erro e responsabilidade. O foco deve estar no desenvolvimento do pensamento, não na máquina.

4. O erro como parte da aprendizagem

A IA erra porque aprende com dados imperfeitos, assim como nós.

  • Analise erros coletivamente.
  • Pergunte: “Por que essa regra não funcionou?”
  • Mostre que revisar critérios é aprender. Essas práticas fortalecem o pensamento crítico e a autonomia intelectual.

5. A “autoridade da resposta pronta”

Nenhuma resposta (humana ou de IA) deve ser apresentada como verdade absoluta.

  • Compare respostas diferentes para a mesma pergunta.
  • Questione: “Isso faz sentido para nossa realidade?”
  • Incentive os estudantes a discordarem, argumentarem e proporem melhorias.

6. Ética, inclusão e cuidado

  • Não exponha dados pessoais de estudantes.
  • Não estimule uso obrigatório de aplicativos.
  • Não substitua processos de aprendizagem por respostas prontas.
  • Não naturalize desigualdades como “falta de interesse”.
  • Valorize o conhecimento local e saberes prévios.
  • Incentive autoria e expressão.

7. O pouco que há, com intencionalidade

Se houver:

  • Um celular do professor: use para preparar materiais, exemplos ou textos.
  • Internet intermitente: use previamente, não durante a aula.
  • Nenhuma tecnologia: trabalhe com papel, quadro, voz e escuta. A tecnologia é meio, não fim.

8. IA desplugada e pensamento computacional

Proponha atividades em que os estudantes descrevam ações em forma de algoritmos para que compreendam como os sistemas de IA funcionam.

Exemplo: criar algoritmos para tarefas cotidianas (amarrar cadarços, organizar materiais, seguir regras de um jogo). Em duplas, um estudante lê o algoritmo enquanto o outro executa, avaliando falhas e propondo melhorias.

Exemplo de algoritmo: amarrar cadarços

  1. Segure uma ponta do cadarço com a mão esquerda e a outra com a mão direita.
  2. Cruze as duas pontas, formando um “X”.
  3. Passe a ponta que ficou por cima por baixo da outra.
  4. Puxe as duas pontas para apertar o primeiro nó.
  5. Faça uma alça (uma “orelha”) com a ponta esquerda do cadarço.
  6. Enrole a ponta direita ao redor dessa alça.
  7. Passe a ponta direita por dentro do espaço formado, criando a segunda alça.
  8. Segure as duas alças.
  9. Puxe as alças ao mesmo tempo até o cadarço ficar firme.
  10. Verifique se o cadarço está bem amarrado.

9. Uso pontual de celulares em projetos colaborativos

Quando possível e de forma planejada:

  • Organize projetos em grupos.
  • Utilize poucos celulares para interação com IA.
  • Socialize resultados oralmente.
  • Registre aprendizados em cartazes ou cadernos.

10. Avaliar para aprender, não para excluir

Priorize a avaliação formativa:

  • Observação da participação.
  • Produções autorais.
  • Debates e registros reflexivos.
  • Autoavaliação dos estudantes. Avaliar é acompanhar processos, não apenas resultados.

Para concluir: quando quase não há tecnologia, há ainda mais espaço para o que é essencial: diálogo, pensamento crítico, ética e presença docente. A inteligência artificial pode apoiar, mas é o professor quem educa.

Minibio da autora

Inês Calixto é pedagoga pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e pós-graduada em Direção Colegiada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). Sua trajetória começou na sala de aula e se expandiu para o acompanhamento e a formação de educadores e estudantes. Com estudos complementares em Aconselhamento e Relação de Ajuda, Filosofia e Teologia, dedica-se a pensar a educação como espaço de encontro e sentido. É coautora dos livros Diário de uma Kombi e Eu IA.

Referências 

  1. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/educacao-basica/bncc . Acesso em: 13 jan. 2026. 
  1. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular – BNCC: Computação. Brasília: Ministério da Educação, 2022.  Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/computacao-na-educacao-basica. Acesso em: 13 jan. 2026. 
  1. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 1, de 4 de outubro de 2022. Institui normas sobre Computação na Educação Básica, como complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br. Acesso em: 13 jan. 2026. 
  1. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 2, de 9 de junho de 2022. Normas sobre Computação na Educação Básica. Brasília, DF, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mec. Acesso em: 13 jan. 2026. 
  1. EDUCAÇÃO E CULTURA CONTEMPORÂNEA. Educação e Cultura Contemporânea. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, jan./jun. 2005. ISSN 2238-1279. 
  1. FUNDAÇÃO TELEFÔNICA VIVO; INSTITUTO IA.EDU; CÁTEDRA UNESCO DE IA DESPLUGADA NA EDUCAÇÃO. Educar na era da inteligência artificial: caminhos para a BNCC Computação. São Paulo: Fundação Telefônica Vivo, 2024. Disponível em: https://www.fundacaotelefonicavivo.org.br. Acesso em: 13 jan. 2026. 
  1. UNESCO. Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial. Paris: UNESCO, 2022.  

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