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Inteligência emocional e a resolução de problemas matemáticos: como lidar com os erros

3 de fevereiro de 2026,
E-docente
resolução de problemas matemáticos

A Matemática, ao longo da trajetória escolar, costuma ser associada a sentimentos de medo, ansiedade e frustração. Muitos estudantes desenvolvem a chamada “ansiedade matemática”, caracterizada por bloqueios emocionais diante de números, fórmulas e resolução de problemas matemáticos. Essa relação conflituosa com a disciplina não surge apenas das dificuldades cognitivas, mas também de experiências escolares marcadas pelo medo de errar e pela valorização excessiva do acerto rápido.

Nesse cenário, a Inteligência Emocional (IE) surge como um importante campo de reflexão para o ensino de Matemática. Ao considerar aspectos como autoconhecimento, autorregulação, motivação, empatia e habilidades sociais, a IE permite compreender que aprender Matemática não é apenas um processo lógico, mas também emocional.

O impacto da ansiedade na resolução de problemas matemáticos

Diversos estudos apontam que fatores como ansiedade e estresse estão entre os principais obstáculos ao desempenho matemático. Essas dificuldades podem ser intensificadas por práticas pedagógicas baseadas exclusivamente na memorização, na rapidez de resposta e na correção imediata, em detrimento da compreensão conceitual e da construção do raciocínio (Belém, 2022). Além disso, a ausência de suporte emocional e a falta de estímulo ao pensamento crítico contribuem para o afastamento progressivo dos estudantes em relação à disciplina.

Leia mais: O lúdico e o brincar no ensino da Matemática: aprendendo com jogos e desafios

Pesquisas também indicam que professores que desenvolvem habilidades socioemocionais tendem a criar ambientes de aprendizagem mais positivos, favorecendo o engajamento e reduzindo a ansiedade matemática (Goleman, 1996; Pontes, 2020). Assim, o papel do docente vai além da transmissão de conteúdos: envolve a mediação das emoções que atravessam o processo de aprendizagem.

O erro como aliado no processo de aprender Matemática

Um dos pontos centrais dessa discussão está na forma como o erro é tratado na escola. Tradicionalmente, o erro em Matemática é associado à falta de estudo ou à incapacidade do aluno, sendo frequentemente acompanhado por punições simbólicas, como notas baixas, exposições públicas ou comparações entre colegas. Esse modelo contribui para fortalecer o medo de errar e a crença de que apenas alguns são “bons em Matemática”.

No entanto, abordagens contemporâneas defendem que o erro é um elemento constitutivo do processo de aprendizagem. Ao analisar um erro, é possível identificar as hipóteses formuladas pelo estudante, as estratégias utilizadas e os conceitos ainda não consolidados. O erro, portanto, deixa de ser visto como fracasso e passa a ser compreendido como oportunidade de aprendizagem.

Inteligência emocional e autorregulação na resolução de problemas

Quando essa perspectiva é articulada ao desenvolvimento da inteligência emocional, o estudante aprende não apenas conteúdos matemáticos, mas também a lidar com frustrações, a revisar seus caminhos e a persistir diante de desafios. Isso favorece a autorregulação emocional, a autoestima acadêmica e o pensamento crítico, elementos essenciais para a resolução de problemas.

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Práticas pedagógicas que valorizam o erro e incentivam diferentes estratégias de resolução, como o trabalho em grupo, a discussão coletiva de soluções e o uso de jogos, têm mostrado impacto positivo na diminuição da ansiedade matemática e no aumento do engajamento dos alunos.

Inteligência emocional, desempenho e permanência escolar

A relação entre aspectos emocionais e aprendizagem também se manifesta no desempenho acadêmico e nos índices de evasão escolar. Estudos como o de Albuquerque (2019) apontam que há correlação entre inteligência emocional e rendimento escolar. Já as pesquisas de Bucco (2022) e Cruz (2021) indicam que a ausência de suporte emocional no ambiente escolar pode contribuir para o acompanhamento da disciplina e, em casos mais graves, para a evasão da escola.

Sivinski (2020) destaca que dificuldades emocionais impactam diretamente o processo de aprendizagem e que intervenções precoces podem reduzir esses efeitos. No caso da Matemática, a repetição de experiências negativas, associadas ao medo do erro e à sensação de fracasso, tende a reforçar um ciclo de desmotivação e afastamento da disciplina.

Como a inteligência emocional potencializa a resolução de problemas matemáticos

Dessa forma, integrar inteligência emocional e ensino de Matemática não significa apenas melhorar o desempenho em avaliações, mas também promover a permanência dos estudantes na escola e a construção de uma relação mais saudável com o conhecimento.

Considerações finais: da teoria à prática pedagógica

Os estudos discutidos ao longo deste texto evidenciam que a aprendizagem matemática não pode ser compreendida apenas a partir de seus aspectos cognitivos. Emoções como medo, ansiedade e frustração exercem influência direta sobre a forma como os estudantes enfrentam problemas matemáticos e constroem seus raciocínios.

Leia mais: Novas Tecnologias no Ensino de Matemática: Desafios e Possibilidades para o Futuro

Apesar de a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhecer a importância do desenvolvimento socioemocional, ainda são pouco frequentes, no cotidiano escolar, propostas que integrem de modo sistemático a inteligência emocional ao ensino da Matemática. Nesse contexto, valorizar o erro como parte do processo de aprendizagem torna-se um elemento central para a construção de ambientes pedagógicos mais acolhedores, nos quais os estudantes se sintam seguros para testar hipóteses, errar e tentar novamente.

A articulação entre inteligência emocional e resolução de problemas contribui não apenas para a melhoria do desempenho acadêmico, mas também para o desenvolvimento de competências como persistência, empatia, cooperação e autonomia intelectual. Essas habilidades são fundamentais para que os alunos enfrentem desafios dentro e fora da escola, superando a lógica punitiva associada ao erro.

Diante disso, torna-se necessário pensar em estratégias pedagógicas que traduzam esses princípios em práticas concretas de sala de aula. Uma possibilidade promissora é o uso de jogos didáticos que priorizem a resolução colaborativa de problemas e a análise dos erros como parte do percurso formativo. Ao transformar o erro em objeto de investigação e o desafio em atividade lúdica, cria-se um ambiente em que aprender Matemática deixa de ser sinônimo de medo e passa a ser experiência de construção coletiva.

Nesse sentido, a seguir, apresenta-se uma proposta de jogo pedagógico que busca materializar, na prática escolar, os fundamentos discutidos neste texto, articulando inteligência emocional, resolução de problemas matemáticos e valorização do erro como estratégia de ensino.


Plano de Aula

Tema: Inteligência emocional e resolução de problemas matemáticos

Estratégia: Jogo “O Desafio dos Erros”

Duração: 2 tempos

Ano/Série: Adaptável (Mas, nesta aula, usaremos temas do 8° ano)

Conteúdo matemático: Resolução de problemas (porcentagem / equações / geometria / proporcionalidade)

Objetivos gerais

  • Desenvolver a capacidade de resolver problemas matemáticos por diferentes estratégias.
  • Promover a valorização do erro como parte do processo de aprendizagem.
  • Estimular a autorregulação emocional diante de desafios matemáticos.
  • Incentivar o trabalho colaborativo e o diálogo matemático.
  • Reduzir a ansiedade associada à resolução de problemas matemáticos.

Descrição do jogo: Missão Matemática – O Desafio dos Erros

Os alunos são organizados em grupos de 3 ou 4 integrantes. Cada grupo recebe um conjunto de cartas-desafio, contendo problemas matemáticos, e um conjunto de cartas-emoção, que orientam estratégias cognitivas e emocionais para lidar com dificuldades.

A cada rodada, o grupo resolve um problema.

  • Se acertar, avança no jogo.
  • Se errar, não perde pontos, mas retira uma carta-emoção e segue a orientação (ex.: “tente outro caminho”, “explique para o colega”, “volte ao enunciado”).

O jogo enfatiza que: o erro é parte do processo; todos participam; ninguém é eliminado; e o foco é compreender o raciocínio.

Organização da aula

TempoEtapaDescrição
10 minIntroduçãoApresentação do objetivo da aula e conversa orientada sobre o erro em Matemática (“Por que temos medo de errar?”, “O erro pode ajudar a aprender?”).
15 minExplicação do jogoO professor explica as regras, apresenta as cartas (desafio e emoção), organiza os grupos e realiza uma rodada demonstrativa no quadro.
30 minAplicação do jogo – 1ª rodadaOs alunos jogam em grupos, resolvendo os problemas. O professor circula entre os grupos mediando, observando estratégias e incentivando o uso das cartas-emoção.
10 minPausa reflexivaInterrupção breve para discutir: quais dificuldades apareceram? Que estratégias ajudaram? Algum erro foi importante para entender melhor?
25 minAplicação do jogoNova rodada com desafios diferentes ou mais complexos. Os grupos retomam o jogo aplicando as estratégias discutidas.
5 minSocializaçãoCada grupo compartilha um erro relevante e explica como conseguiu superá-lo através da resolução de problemas matemáticos.
5 minSistematizaçãoO professor retoma os conceitos matemáticos trabalhados e relaciona-os com a importância do erro, da persistência e da cooperação no processo de aprendizagem.

Avaliação

A avaliação será diagnóstica e formativa, observando: participação dos alunos; estratégias utilizadas; interação entre os membros do grupo; capacidade de lidar com o erro; argumentação matemática durante a socialização

Minibio do autor

Gabriel Domingues é professor de Matemática, com atuação na Educação Básica e experiência no desenvolvimento de projetos que articulam ensino, tecnologia e práticas lúdicas. Atualmente é pós-graduando em Ensino de Matemática pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com interesse em metodologias ativas, jogos e uso de recursos digitais na aprendizagem matemática. Desenvolve trabalhos voltados à criação de propostas pedagógicas que aproximam a Matemática da experiência dos estudantes. 

 Referências

ALBUQUERQUE, Maria Danielli Leite. O ensino médio integrado no Estado do Ceará: o projeto pedagógico de uma escola estadual de educação profissional. 2019. Dissertação – Universidade do Porto, Porto, 2019. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/123862. Acesso em: 29 jan. 2025. 

BELÉM, José Lucas Fialho. Inteligência emocional e criatividade: um estudo descrito em professores de química. 2022. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Matemática) – Universidade Federal de Pernambuco, Caruaru, 2022 

BUCCO, Elisangela Baldo. A evasão nas escolas estaduais de ensino médio de Mato Grosso: uma análise dos condicionantes socioculturais e pedagógicos. 2022. Dissertação (Mestrado em educação) – Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Erechim, 2022. 

CRUZ, Kelly Cristine Batista. Projeto Semeando o Futuro: intervenção psicossocial para prevenção da evasão escolar no ensino médio. 2021. Dissertação (Mestrado) – Universidade Vale do Rio Doce- UNIVALE, Governador Valadares, 2021. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/397. Acesso em: 29 jan. 2025 

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 1996. 

SIVINSKI, Marcio A. Dificuldades de Aprendizagem e Evasão Escolar no Ensino Médio Noturno: a motivação em voltar a estudar e manter a motivação nos estudos na atualidade. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso – Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIVINCI), Guaramirim,2020. Disponível em: https://publicacoes.even3.com.br/. Acesso em: 25 jan. 2025 

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